Fotografia para Inclusão Social
© 2004 - CARLOS CARVALHO
 

Organimos Transgenicamente Modificados - em busca da precisão conceitual
Carlos Walter Porto-Gonçalves

Como a ciência está cada vez mais politizada, como o demonstram o debate acerca dos transgênicos ou da mudança climática global (efeito estufa), a exigência da precisão conceitual torna-se, exatamente por isso, ainda mais necessária. É sabido desde Francis Bacon e reiterado, mais recentemente, por Michel Foucault, que 'saber é poder'. Embora não haja consenso na comunidade científica quanto ao tratamento a ser dado a essa complexa relação, o fato é que a história recente vem nos obrigando a ela dedicarmos mais atenção. Desce 1945, com o uso da bomba atômica, que a ciência tem se tornado um assunto sério demais para ficar nas mãos dos cientistas, se me permitem me apropriar da máxima de Clausewitz, o teórico da guerra. No caso da bomba atômica, a relação entre o conhecimento científico e a poder, por meio da guerra, ficou por demais explícita. Entretanto, mais recentemente, essa relação entre conhecimento científico e poder vem se tornando mais banal, ao chegar mais perto do nosso cotidiano por meio de questões como nossos alimentos, remédios e das mudanças climáticas que não são só globais, posto que, de modo desigual, vem atingindo as diferentes regiões do planeta (vide ilhas da Polinésia e Melanésia e ao longo do Oceano Pacífico).
Considerar a relação entre ciência e poder é uma exigência da própria ética científica, na medida que essa relação está implicada na própria natureza da produção do conhecimento científico, sobretudo, mas não exclusivamente, diante das condições materiais e de financiamento. As parcerias, cada vez mais comuns, entre o Estado e as empresas, tem colocado novas e complexas questões como, por exemplo, a do caráter público do conhecimento científico que se traduz na exigência de publicação (publicar é tornar público) e o caráter privado que caracteriza a instituição empresarial que exige a proteção sigilosa do conhecimento. Os seminários, colóquios, simpósios, congressos e encontros científicos já não vêm mais as comunicações abertas de conhecimento, haja vista a preocupação cada vez maior com o patenteamento.
É com a intenção de contribuir para o debate acerca dos OGMs - Organismos Geneticamente Modificados - e dos OTMs - Organismos Transgenicamente Modificados - que gostaria de, em nome da precisão conceitual, sugerir que não se trabalhe com o conceito de OGMs que, rigorosamente, é tudo que existe na evolução da espécies. O processo de especiação se dá, sempre, por modificação genética, enquanto processo inintencional. Por sua vez, os cultivares são, desde sempre, OGMs na medida que são criações humanas co-evoluindo com processos naturais durante tempos longos. O que está em debate, hoje, não são os OGMs e, sim, os OTMs, qual seja, organismos cujo processo de criação não se dá de modo livre na relação dos agricultores com natureza. Já não estamos mais diante de agri-CULTURA e, sim, de agro-NEGÓCIO, aliás, como o complexo técnico-científico-empresarial gosta de se autodenominar. Respeito, aqui, a boa norma antropológica de respeitar ao máximo as autodenominações.
Com os OTMs muda o lugar da produção de conhecimento num setor fundamental para a existência humana, posto que diz respeito à reprodução energético-alimentrar da nossa espécie, como são a agricultura e a criação de animais. Assim, como o conhecimento é tanto como alimento condição necessária para a reprodução - aliás, todo modo de produção de alimento é um modo de produção de conhecimento -, o que estamos assistindo com o deslocamento dos OGMs enquanto produção de cultivares para os OTMs é o deslocamento do locus de poder dos campos e dos camponeses e povos originários os mais variados para os grandes laboratórios do complexo técnico-científico--empresarial. A diversidade cultural tende a ser ameaçada. Tudo indica que o destino da humanidade e do planeta dependerá da solução dessa luta que cada vez mais vem exigindo a atenção de todos.

Carlos Walter Porto-Gonçalves é Doutor em Geografia pela UFRJ e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000). É autor de diversos artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais e internacionais, sendo os mais recentes: - “Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentablidad”, ed. Siglo XXI, México, 2001; “Amazônia, Amazônias”, ed. Contexto, São Paulo, 2001; “Da Geografia às Geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades” – “Da Geografia às geo-grafias: um mundo em busca de novas territorialidades” in “La guerra Infinita: hegemonía y terror mundial” Sader, E. e Ceceña, Ana Esther (orgs.), Clacso, Buenos Aires 2002. “A Geograficidade do Social” in “Movimientos sociales y conflicto en América Latina” Seoane, José (org). Clacso, Buenos Aires, 2003; “Geografando – nos varadouros do mundo”, edições Ibama, Brasília, 2004.

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