Organimos
Transgenicamente Modificados - em busca da precisão
conceitual
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Como a ciência está cada vez mais politizada,
como o demonstram o debate acerca dos transgênicos
ou da mudança climática global (efeito estufa),
a exigência da precisão conceitual torna-se,
exatamente por isso, ainda mais necessária. É
sabido desde Francis Bacon e reiterado, mais recentemente,
por Michel Foucault, que 'saber é poder'. Embora
não haja consenso na comunidade científica
quanto ao tratamento a ser dado a essa complexa relação,
o fato é que a história recente vem nos
obrigando a ela dedicarmos mais atenção.
Desce 1945, com o uso da bomba atômica, que a ciência
tem se tornado um assunto sério demais para ficar
nas mãos dos cientistas, se me permitem me apropriar
da máxima de Clausewitz, o teórico da guerra.
No caso da bomba atômica, a relação
entre o conhecimento científico e a poder, por
meio da guerra, ficou por demais explícita. Entretanto,
mais recentemente, essa relação entre conhecimento
científico e poder vem se tornando mais banal,
ao chegar mais perto do nosso cotidiano por meio de questões
como nossos alimentos, remédios e das mudanças
climáticas que não são só
globais, posto que, de modo desigual, vem atingindo as
diferentes regiões do planeta (vide ilhas da Polinésia
e Melanésia e ao longo do Oceano Pacífico).
Considerar a relação entre ciência
e poder é uma exigência da própria
ética científica, na medida que essa relação
está implicada na própria natureza da produção
do conhecimento científico, sobretudo, mas não
exclusivamente, diante das condições materiais
e de financiamento. As parcerias, cada vez mais comuns,
entre o Estado e as empresas, tem colocado novas e complexas
questões como, por exemplo, a do caráter
público do conhecimento científico que se
traduz na exigência de publicação
(publicar é tornar público) e o caráter
privado que caracteriza a instituição empresarial
que exige a proteção sigilosa do conhecimento.
Os seminários, colóquios, simpósios,
congressos e encontros científicos já não
vêm mais as comunicações abertas de
conhecimento, haja vista a preocupação cada
vez maior com o patenteamento.
É com a intenção de contribuir para
o debate acerca dos OGMs - Organismos Geneticamente Modificados
- e dos OTMs - Organismos Transgenicamente Modificados
- que gostaria de, em nome da precisão conceitual,
sugerir que não se trabalhe com o conceito de OGMs
que, rigorosamente, é tudo que existe na evolução
da espécies. O processo de especiação
se dá, sempre, por modificação genética,
enquanto processo inintencional. Por sua vez, os cultivares
são, desde sempre, OGMs na medida que são
criações humanas co-evoluindo com processos
naturais durante tempos longos. O que está em debate,
hoje, não são os OGMs e, sim, os OTMs, qual
seja, organismos cujo processo de criação
não se dá de modo livre na relação
dos agricultores com natureza. Já não estamos
mais diante de agri-CULTURA e, sim, de agro-NEGÓCIO,
aliás, como o complexo técnico-científico-empresarial
gosta de se autodenominar. Respeito, aqui, a boa norma
antropológica de respeitar ao máximo as
autodenominações.
Com os OTMs muda o lugar da produção de
conhecimento num setor fundamental para a existência
humana, posto que diz respeito à reprodução
energético-alimentrar da nossa espécie,
como são a agricultura e a criação
de animais. Assim, como o conhecimento é tanto
como alimento condição necessária
para a reprodução - aliás, todo modo
de produção de alimento é um modo
de produção de conhecimento -, o que estamos
assistindo com o deslocamento dos OGMs enquanto produção
de cultivares para os OTMs é o deslocamento do
locus de poder dos campos e dos camponeses e povos originários
os mais variados para os grandes laboratórios do
complexo técnico-científico--empresarial.
A diversidade cultural tende a ser ameaçada. Tudo
indica que o destino da humanidade e do planeta dependerá
da solução dessa luta que cada vez mais
vem exigindo a atenção de todos.
Carlos Walter Porto-Gonçalves é Doutor em
Geografia pela UFRJ e Coordenador do Programa de Pós-graduação
em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Ex-Presidente
da Associação dos Geógrafos Brasileiros
(1998-2000). É autor de diversos artigos e livros
publicados em revistas científicas nacionais e
internacionais, sendo os mais recentes: - “Geo-grafías:
movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentablidad”,
ed. Siglo XXI, México, 2001; “Amazônia,
Amazônias”, ed. Contexto, São
Paulo, 2001; “Da Geografia às Geo-grafias:
um mundo em busca de novas territorialidades”
– “Da Geografia às geo-grafias:
um mundo em busca de novas territorialidades”
in “La guerra Infinita: hegemonía y terror
mundial” Sader, E. e Ceceña, Ana Esther (orgs.),
Clacso, Buenos Aires 2002. “A Geograficidade do
Social” in “Movimientos sociales y conflicto
en América Latina” Seoane, José (org).
Clacso, Buenos Aires, 2003; “Geografando –
nos varadouros do mundo”, edições
Ibama, Brasília, 2004.
Voltar
para Agricultura