Em
busca da luz social na fotografia documental
Quando estamos no conforto de nossas casas, nos cercamos
de objetos e pessoas que amamos e queremos sempre por perto. Estabelecemos
ali nossas marcas, nossas grafias. E protegemos e criamos territórios
pessoais que só abrimos para outros que entendemos respeitar
esses territórios e que sejam capazes de ler nossas grafias
existenciais. Quando recebemos alguém com alegria e amizade
estamos franqueando esses territórios pessoais e esses
amigos percebem isso e sentem o gosto do alimento dessa amizade.
Quanto menos proteção levantamos nesses territórios
pessoais, maior a expansão desse alimento-amizade. São
coisas muito simples. Mas é fundamental estarmos disponíveis.
Quando levantamos acampamento e vamos a outros territórios,
obviamente devemos levar conosco esse mesmo respeito que queremos
que seja praticado em nosso território.Devemos agir em
relação aos outros como gostaríamos que agissem
em relação a nós.Hoje não consigo
ver a fotografia de outra forma.
Nas comunidades que tenho fotografado tenho encontrado pouquíssimas
proteções a não ser aquelas óbvias
que todo ser humano é capaz de intuir sem a necessidade
do intelecto.Carrego toneladas de escudos urbanos que ao chegar
nas comunidades são invariavelmente desmoralizados pela
realidade ao meu redor, pela abertura das pessoas.
Pessoas que vivem em meio à pobreza, me franqueiam o seu
maior patrimônio pessoal, a alegria, o sorriso, a dignidade,
um “outro olhar sobre o mundo” e tudo isso com a gentileza
de uma criança feliz com a nossa presença. São
luzes que iluminam para mim a imagem pós-foto. E isso não
pode ser objeto de prazer pessoal. Se minha fotografia não
mostra essa luz, é porque - parafraseando Robert Capa -
"não vi essa luz perto o suficiente".
Há alguns anos, sem conseguir precisar quando mas sentido
que acontecia, percebi que não podia intervir na vida das
pessoas com o meu equipamento fotográfico, a minha presença,
a minha cultura e a minha arrogância, mas sim tentar ser
útil a elas. Antes de entrar em uma comunidade e iniciar
uma documentação fotográfica me faço
três perguntas básicas:
- porque fotografar essas pessoas - o que acrescento a elas
com o meu trabalho ?
- em que a minha fotografia e o meu trabalho vai ser útil
– que tipo de auxílio vai ser possível com
a minha atividade?
- existe realmente algo a ser feito nessa comunidade que possa
melhorar a sua qualidade de vida – minha documentação
fotográfica tem espaço nessa realização?
Se não obtver resposta para uma dessas perguntas, guardo
meu equipamento e procuro apenas merecer a atenção
e amizade que me forem ofertadas. Aprendi a criar meu arquivo
fotográfico mental e esse exercício mental ajudou
a aperfeiçoar a minha luz. Não realizo exercício
estético com a vida das pessoas.
Como sabemos, fotografar significa grafar com a luz,
escrever com a luz. O que não sabemos é escrever
e qual linguagem utilizar para sermos honestos e coerentes com
quem fotografamos e perceber como eles querem ser documentados.
E esse aprendizado é uma via de mão dupla.
Todos nós somos pontos de luz e nos movimentamos em nossas
vidas emitindo a luz que sensibiliza o celulóide emulsionado
que nos permitirá gravar para sempre momentos e vivências.
Quanto mais buscamos entender os caminhos dessa luz social, mais
refinada fica a nossa escrita, a nossa linguagem fotográfica,
porque mais simples. É o que busco - encontrar a luz social
que vai me permitir dialogar através de uma linguagem percebida
por todos. E essa luz é conseqüência do resultado
de um aprofundamento das relações pessoais. É
uma luz “Freiriana”.
Este site é uma tentativa de mostrar esse exercício
e de possibilitar uma ligação mais direta entre
essas comunidades e suas atividades, com pessoas e organizações
que tenham disponibilidade de apoiá-las política,
social e financeiramente.
Carlos Carvalho - 2004