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Artigo

Soja rompe porteira Amazônia adentro
Por Lúcio Flávio Pinto em 29/12/2003

Fonte: Jornal Pessoal


Se não fizerem o próximo governador, os produtores de soja elegerão o governador seguinte do Pará. Esse projeto de poder se completará com a tomada de toda área mecanizável do Estado para o cultivo desse grão, que começou a entrar na Amazônia em 1997 e, desde então, vem se expandindo com enorme celeridade.
Essa conversa, o deputado estadual (do PT) Airton Faleiro ouviu ao lado de uma mesa de "sojeiros" num bar em Itaituba, revelando-a durante o seminário "A geopolítica da soja na Amazônia", promovido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, Embrapa Amazônia e Amigos da Terra, na semana passada, em Belém. Por ironia, Faleiro era o único produtor de soja presente ao encontro. Na verdade, ex-produtor, que atuou durante 10 anos no Paraná até se transferir para o Pará e, aos poucos, trocar de atividade, passando do sindicalismo para a política partidária.
A ausência de produtores de soja foi uma lacuna, apontada por Paulo Roberto Galeraine, engenheiro-agrônomo da Embrapa-Soja, instalada em 1975, em Londrina, no Paraná, uma das responsáveis pelo crescimento da cultura em área e em produtividade. Com certa ironia, observou que os "sojeiros" não mordem e, por isso, não devem ser encarados com medo. Alguns deles, como o grupo Maggi, um dos mais citados no seminário, dispõem até de "pessoal competente", que poderia ter comparecido e contribuído para as discussões. Mas como aceitá-los se algumas de suas empresas são apontadas como incursas em delitos penais, retrucou um dos palestrantes.
Os organizadores do evento parecem ter preferido, nesse primeiro momento, confrontar apenas governo e instituições de pesquisa, deixando ao largo os atores do drama. Esse drama pode ser definido pelo descompasso entre o avanço da soja (primeiro por áreas já desmatadas e convertidas e, agora, também induzindo o desmatamento de florestas nativas) e o conhecimento sobre o efeito e o significado dessa presença. Daí o temor e a hostilidade do mundo acadêmico e das representações da sociedade civil, especialmente as ONGs.
O pesquisador Charles Clement, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), repetiu a palestra que tem feito, enriquecida e ampliada, com sucesso. Mostrou que, não sendo prioridade nacional e, por conseqüência, tornando-se impotência regional, a ciência pouco pode fazer para orientar os passos do homem no avanço sobre a paisagem original, evitando que ele se torne destruidor sob todos os pontos de vista que não sejam os dos meros indicadores quantitativos de grandeza física.
Nesse cenário de empirismo, de predomínio de forças descontroladas e de ausência do poder regulador do governo, sensível aos clamores sociais e às cobranças do saber humano acumulado, o terreno é fértil a todo tipo de interpretação, conclusão ou boato. O sentimento dominante resulta do confronto entre o medo dos observadores e a euforia dos pioneiros, cada uma das partes montando seu universo fechado, preparando as armas para a batalha, não para o diálogo. Por enquanto, a perspectiva é de que vença o mais forte, não o melhor ou certo. Em qualquer resultado, a Amazônia talvez esteja condenada a pagar a conta do resultado.
O deputado Airton Faleiro sugeriu que a octanagem dos "sojeiros" no bar de Itaituba pode ter sido o causador da inconfidência, revelando uma estratégia montada nos bastidores, que só será revelada quando alcançar o amadurecimento. Apesar do poder incontestável dos produtores de grãos de Mato Grosso e de seu principal representante, o governador Blairo Maggi, híbrido de empresário e político, poucos consideraram factível a previsão. O Pará tem cultura política própria, que talvez bloqueie os evidentes apetites expansionistas do governador-produtor. Mas é bom considerar a questão.
Maggi tem brandido a questão da disputa na divisa Pará-Mato Grosso. Não seria patriotada sustentar que o Pará tem argumentos suficientemente sólidos para vencer o contencioso, se ele vier a ser proposto, como o vizinho Estado tem ameaçado, querendo reaver terra que alega lhe ter sido usurpada. Mas é contrastante o ativismo do governo mato-grossense com a passividade da administração paraense. Não só na divergência quanto aos limites territoriais, mas no comando das frentes de expansão que partem de Mato Grosso ou tomam-na como base no rumo da fronteira amazônica.
O grupo Maggi, na quarta fase de sua evolução histórica, pretende se tornar uma trading company internacional e uma empresa de logística madura a partir de sua nova presença na Amazônia. Conseguiu emplacar uma fórmula organizacional vantajosa em Itacoatiara, no Amazonas, seu primeiro terminal de grãos no modal hidroviário, conectado a Porto Velho, que faz o transbordo diário da carga de 150 caminhões: entrou com apenas um quarto do investimento, mas ficou com a operação do porto, bancado em 75% pelo governo do Amazonas e o BNDES. Mas o rio Madeira não é apenas a via de escoamento da soja: em suas margens a floresta começa a cair para em seu lugar surgirem plantios do grão.
Maggi pretende fazer o mesmo com a BR-163: propôs e lidera a criação de um consórcio, elo de um dos projetos PPP (Parceria Público Privado) do PPA (Programa Plurianual) para 2004-2007 do governo Lula, com recursos assegurados para ser executado a partir de 2005. Bertha Becker, outra das palestrantes do seminário, garantiu que o grupo Maggi tem ambição ainda maior: quer entrar nas hidrovias Araguaia-Tocantins, Teles Pires-Tapajós e Rio Negro-Branco, abrindo alas para a presença da empresa no ponto mais setentrional do país, Roraima, para o mercado dos Estados Unidos e do Caribe. Também está de olho em mais três rodovias, além da Santarém-Cuiabá: Teles Pires-BR-364 (Cuiabá-Porto Velho), Transamazônica e Cáceres-Vilhena.
A novidade, nesses casos, é a empresa privada no lugar do governo nas novas fronteiras, atuando sem contenção normativa e regulatória, e o governo abdicando do que lhe cabe para tornar sua uma política que é de privatização, quando deveria ser pública (o que é em certa medida, mas apenas para efeito de multiplicação do rendimento particular). Com outro acréscimo inovador: o governo dando a essa privatização nomes de outro feitio e de diferente modelo, todos extraídos do samburá de etiquetas do PT.
Não é só o desdobramento futuro dessa matriz que inquieta. É sua correlação atual de fatores, alguns dos quais Charles Clement apresentou. Considerada sua feição legal, para efeito de incentivos fiscais, a Amazônia já responde por 20% da soja brasileira, 13% da produção mineral, 12% do rebanho bovino e 10% do saldo da balança comercial. Ocupa 61% do espaço físico do Brasil e 13% da sua população. Mas só responde por 7% do PIB. E seus Estados estão no rabo da fila do desenvolvimento humano, pelo IDH. O que se pode esperar quando o que se faz é incrementar todos os mecanismos do processo que está produzindo o desenvolvimento desse subdesenvolvimento vergonhoso?

Lúcio Flávio Pinto é jornalista.
Artigo publicado no site Amazônia - clique e veja >>>

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